O corpo é uma via de expressão já utilizada desde os primórdios. E com a moda, as possibilidades de exteriorização facilitaram, tanto no sentido de expressar as subjetividades como também de possibilitar o metamorfoseamento, já que o indivíduo está em constante processo de transformação. A cada “look” criado, o mesmo pode transmitir uma imagem com as emoções do momento, que pode facilmente ser modificada.

De um modo geral, a moda é como cada um vai esculpir o seu corpo, a figura que cada um vai construir para expressar suas identidades. Sendo que, através dessa figura, ele se representa, o indivíduo se reconhece e vai ser reconhecido pela sociedade.

O boom do fast fashion

Na idade média, os códigos sociais e de vestimenta eram rígidos. Já no mundo contemporâneo, justamente pós-globalização, o consumidor passou a agir sobre o produto que adquire e o contextualiza a partir de seus próprios significados. 

Com o excesso de informação, a moda passou por um período de massificação, o qual os modismos eram facilmente encontrados e adquiridos pela maioria da população. Entretanto, esse mesmo excesso fez com que a indústria acelerasse os processos, extrapolando limites de tempo, consequentemente se tornando insustentável socioambientalmente, o que chamamos de  Fast Fashion.

O produto final oriundo desse sistema de produção chega ao consumidor com um preço relativamente baixo, porém os processos acelerados proporcionam um produto inferior e de baixa qualidade, justamente por conta disso. 

Necessidade de mudança

A palavra sustentabilidade propriamente dita se fez oriunda por volta de 1980, no qual a principal discussão era como gerar crescimento econômico sem comprometer as futuras gerações. Pode-se dizer, portanto, que a partir desse encontro surgiu o “estopim” para começar essa discussão que se arrasta por um bom tempo, e só vai ganhando novas perspectivas e novas preocupações.

Atualmente, tudo que é projetado possui, de certa forma, uma limitação em sua vida útil, ou seja, pouco tempo de uso, baixa qualidade, e logo será substituído por outro e, por fim, irão parar em lugares de descarte inadequados. 

Segundo Michael Braungart e Willian McDonaught, no livro “Creadle to Creadle”, tudo vem sendo projetado para o descarte logo após o uso. O grande porém é que esse “fora” não existe efetivamente. Tudo é “dentro” em nosso planeta.

O produto de moda, assim como outros diversos, entra nesse contexto. Temos uma indústria cada vez mais poluidora e geradora de resíduos, não só ela como também os usuários que adquirem produtos e os descartam frequentemente.

Desenvolvimento sustentável é tratado hoje como uma tendência sócio comportamental, ou seja, não é considerado uma tendência passageira, pois é algo que vem sendo abordado a décadas e, com o decorrer do tempo, só foi agregando novas concepções e atingindo cada vez mais um número significativo de adeptos.

Para que um produto de moda seja mais sustentável é preciso que haja um planejamento desde sua concepção, para que esse, depois de produzido, atenda as necessidades desejadas e não fique preso a sua primeira função. Ou seja, siga de certa forma (1) o modelo Creadle to Creadle, que se assemelha ao exemplo do sistema natural, espelhando-se nela, no sentido de otimizar um sistema. E assim que sua primeira “vida útil” se aproximar do fim, uma evolução já teria sido programada.

A ideia é entender também que, se todos os processos que manipulamos hoje causam algum tipo de impacto, é necessário pensar em como eles podem se tornar ponderosos e sustentáveis. Tendo o cuidado de pensar no processo de cada etapa e quais impactos socioambientais podem gerar, a fim de eliminar ou reduzi-los ao mínimo.

Para a que esses produtos e seus respectivos sistemas se tornem mais sustentáveis, existem algumas técnicas já conhecidas e utilizadas que ajudam a minimizar resíduos e otimizar a vida útil desses, como a modelagem “zero waste”, o “upcycling” e a multifuncionalidade.

E, com isso o papel do designer torna a ser o “gerente” das relações entre produto e peça, a fim de não só cuidar das partes “físicas” que compõe esse produto, mas também aproximá-los com conceitos mais intensos do indivíduo, como afeição, memória e representação de ideologias. E o do consumidor final de consumir com consciência produtos que sejam necessários dentro de suas subjetividades.

 

(1) José Luiz Ferreira – May 31, 2018

 

Texto/autora:

Texto/autora: Thamires Sena

Área de Atuação: Moda Consciente

Arte gráfica e ilustração: https://www.pexels.com/pt-br/

Projeto Editorial: Tess Villa