“E se alguém ver, e se me pegarem, e se…?”, pensou Ana Lee que levou um susto quando seu melhor amigo fez um “buuuu” do tamanho do mundo.

Intrigado com o comportamento de sua amiga, ele começa indagando se sua irmã mais velha sabia onde ela estava, ao que ela respondeu que não, com vontade de mandá-lo sair logo dali. Mas claro que ele percebeu e ignorou totalmente, como bom adolescente que tem por característica vestir-se, calçar-se, colocar boné e cachecol de chato, porque carapuça – como ele diz – só serve para o saci; e ele, Bob Marcos, tem estilo (seu nome de fato era Roberto Marcos, mas Bob era mais estiloso.

 

– Roberto… – iniciou Ana.

– Bob, por favor.

– Ai, Roberto Marcos, não estou podendo com isso – disse Ana que sabia como irritar o amigo.

– Eu disse Bob! Retrucou enquanto passava a mão no cabelo com um topete que ele faz questão em colocar bastante pasta com cola pra deixar bem pro alto.

– Roberto Marcos, então preciso falar sobre isso com alguém.

O rapaz podia ser chato assumido, mas sabia muito bem quando sua melhor amiga estava tensa, ou triste. Segundo ele, sua pele marrom, que ele tanto gostava – pois era de um tom de chocolate que ele nem ligava, mas que em Ana Lee era lindo -, reluzia, mas sim, sua pele ficava levemente pálida quando ela estava um “pouco fora do prumo”, como ela dizia.

– O que foi, Ana Lee? – A jovem tira da bolsa um diário, porém não era um diário novo, logo não poderia ser dela. 

– Que caderninho velho esse, hein.

– Veja como fala! Ele deve ter minimamente 100 anos.

– Nossa, que velho mesmo! O que você está fazendo com isso?

– Lendo sobre a história de minha gente.

– Ah, entendi – com uma cara que não fazia ninguém acreditar.

E a partir daí, ela começa a contar sobre um lugar longe, muito longe, que ela mesma não tem ideia de onde é, porque perdeu as referências e nem a piadinha sem graça de seu amigo de que “tio Google pode ajudar” adiantou, e ela começou falando:

Sua tatatatatata – não sabia quantas tatas atrás disse a sua avó, a quem pertencia o diário – disse que eles descendiam de um grupo meio que nômade da África, mas que registravam predominante os iorubás, que eram várias populações do mesmo tronco linguístico. Eram, então, os efãs, ijexás, egbás, entre outros povos. Mas alguém anotou por cima da anotação feita que habitavam a atual região da Nigéria e do Benin.

Além do idioma, eles tinham traços culturais e religiosos em comum e estavam organizados em cidades independentes entre si, mas todos acreditavam que elas tinham uma mesma origem divina e Ilé Ifê havia sido escolhida pelo sagrado, o deus Olodumaré, como criação do mundo, sendo por isso considerada o centro espiritual dos iorubás e era governada por um grande sacerdote.

 

Nesse momento, Ana Lee falava com tanta empolgação, com tanta identidade que Roberto Marcos, ou melhor, Bob Marcos parecia ver esse sacerdote em sua frente. E a empolgação da menina continuou:

– E você sabia que as outras cidades possuíam chefes que eram eleitos por um conselho e que eles deveriam governar apenas por um tempo determinado?

Roberto fez que não com a cabeça, constatando que não sabia muita coisa sobre a África, porque nas escolas não falam muito. O que ele sabia mais vinha por Ana Lee, uma menina que era preta na pele e na essência, forte e valente porque, quando tentavam fazer chacota dela, ela sempre dizia: “Olha lá como fala, pois sou Ana Lee, descendente da África, berço das civilizações.” E a menina com suas tranças era como uma heroína para ele, um menino de seus 12 anos, de pele branca, que os meninos mais fortes, os valentões, chamavam de “branco azedo” e era Ana Lee que o livrava das perseguições que até brigava por ele. Os dois eram… queijo e goiabada que tanto gostavam de comer naquelas Minas Gerais onde moravam.

Roberto e as demais crianças das escolas só conheciam um pouco mais sobre a história da África quando os professores, animados pelo Dia da Consciência Negra, faziam algo diferente juntando geralmente português, história e geografia. Mas era sempre muito do mesmo, fato que fazia Ana Lee debater porque não existia para ela a ideia de um dia para celebrar questões dos povos da África, tendo o continente a importância que tinha. Assim como não engolia Dia do Índio, porque “o que os indígenas faziam nos 364 dias do ano? Dormiam até o próximo 19 de abril?” 

E a menina em seus plenos onze anos tinha muitos questionamentos que poucas pessoas gostavam, principalmente na escola, onde ela achava que deveriam gostar de estudantes questionadores e questionadoras – ela gostava de enfatizar o gênero feminino das palavras.

Entusiasmada, a menina continuou alertando que as cidades iorubás também controlavam rotas comerciais, as que iam do litoral para o interior da África. Avançando, dizia que eles tinham grandes conhecimentos na metalurgia,  da qual faziam armas, instrumentos e obras de arte, além de possuírem importantes centros de artesanato, com presença de tecelões, marceneiros e ferreiros. Isto tudo antes dos portugueses chegarem.

– Infelizmente, já existia tráfico entre os próprios povos africanos, resquício do poder do qual a humanidade parece não perceber que acaba com ela mesma. Os árabes muçulmanos encontraram, assim, meios que já existiam para a compra de escravos para os seus propósitos.

Nesse momento, Roberto Marcos ouve alguém chegando. Ana Lee sai de suas imagens de dor de seu povo e percebe algo que a faz guardar o diário às pressas. Quando alguém se aproxima.

– Ah, é você, Marta. Que susto! – falou o menino com ar de alívio ao mesmo tempo que ficou em alerta e percebendo que sua melhor amiga estava pálida; tentou disfarçar:

– Mas como estava falando, o filme tratava de tráfico de escravos, é isso?

– É, é isso mesmo… você sabe como eu fico chateada com esse assunto.

Marta não aceitou muito a resposta, pois, ao chegar, viu Ana Lee muito empolgada falando tal qual fosse uma professora. A menina, prima de Roberto, não era a companhia das mais queridas de Ana, tampouco do primo. Era uma pessoa que pensava muito nela e gostava de colocar-se superior aos outros, meio que tentando esconder algo, que não sabia o que poderia ser. Mas a única coisa que sabia seu primo é que seu pai abandonara a família há uns três anos. Segundo sua fala, “de uma forma nada criativa: disse que ia comprar cigarros e nunca mais voltou. Nem criativo ele foi”. Talvez isso fosse uma explicação para ela se tornar o terror dos menores, talvez isso fosse o motivo para ela pegar tanto no pé de Ana Lee, que conseguia sobressair nas aulas por sua facilidade em aprender e nem ao menos ficava rosa quando pegava sol! Marta sempre ficava pensando sobre essa tal de melanina dos afrodescendentes.

Mas, enfim, o fato era que ela estava lá com a pulga atrás da orelha, e nem Roberto nem Ana podiam continuar conversando. Ainda por cima, Ana tinha que ficar esperta, porque Marta era bem do tipo de puxar a bolsa para ver o que tem dentro, tendo em vista que ela estava incomodada com a resposta que Roberto deu, na verdade nem um pouco convencida.

– E qual era o nome do filme? – quebrou ela o silêncio de alguns segundos que pareciam horas e que fez o meninos entenderem que Marta não iria logo embora.

Ana, ainda pálida, cuidando demasiadamente de sua bolsa, fato que levava a astuta Marta à desconfiança e a se aproximar mais da menina acuada, e consequentemente da bolsa, não sabia o que dizer.

Foi quando Roberto teve a excelente ideia de lembrar, sim!

 – Nossa! Temos prova amanhã de boatemática (forma que a mãe de Marta se referia à matéria tão temida pela jovem que ficou reprovada exatamente por ela).

– Aiii!!! – disse Marta, voltando-se para Roberto e perdendo o foco de Ana Lee. Por que você tinha que lembrar, Roberto?

– Bob, por favor, disse o menino. Porque não quero ver minha priminha reprovada e temos que correr porque sua mãe pediu minha ajuda e de Ana Lee.

Se tinha coisa que mais deixava Marta irritada, além do ridículo codinome que seu primo se dava, que Marta só falava quando citava Bob, o bobão, era ter que estudar com Ana Lee, que sem que sua mãe ouvisse, ela – Marta – fazia questão de chamar de calça Lee, ainda que Ana nem se importasse.

Na verdade, Ana percebia as dificuldades de Marta: dificuldade com suas emoções que a levavam a fazer coisas nada a ver, a tentar magoar pessoas para se sentir superior. Tentativa também de fugir das explicações quando perguntava quanto tempo levava para fazer as tranças de Ana Lee. 

O que Ana – a jovem que trazia consigo o Lee da cantora que a mãe muito admirava – gostava de falar pra menina Marta nesses momentos era que se suas tranças pudessem falar, contaria muitas histórias, inclusive a de uma jovem moça que tentava fugir das aulas com conversas paralelas em vez de resolver logo o problema. Mas, sim, se as tranças de Ana Lee pudessem falar, contaria muitos contos de seu povo, de sua riqueza e lutas, de sua beleza, mas também contaria histórias de heróis e heroínas dos dias de hoje, africanos ou não que trabalham por uma vida melhor para todos.

De certo, ela também contaria sobre seus amigos, crianças em corpos de jovens, seu amigo Bob Marcos – vamos falar o que ele gosta de ouvir – e até Marta que, por não dar conta de suas dificuldades, arruma problemas para si mesma; porque Ana, assim como seu povo, acreditava que todos que vêm a este mundo, mais cedo ou mais tarde, precisam prestar contas de seus atos. 

E nessa hora, ouvia a voz doce de sua avó: “Então que possamos viver bem, tendo respeito pela vida, e nossas contas estarão quitadas.”

Texto/autora: Tess Villa

Área de Atuação: Educação, Arte Literária, Contação de História

Arte gráfica e ilustração: @soujuoliveira

Projeto Editorial: Tess Villa