Como a vida acontece num relance, em um piscar de olhos praticamente, a visão que tenho deste momento é aquela de um filme qualquer em que se destrói sua cidade, ou aquilo que você pensa que conhece muito bem até de olhos fechados. E em meio a essa cena, vai você, a heroína, sem capa e com máscara, sim, porque usar máscara é fundamental neste momento em meio a um mar de vírus vilões, poeira, de pedras, de vidas que se foram, por algum motivo que vai além do que se fala ser o motivo. Lá estamos nós, está vendo?

Vamos, então, observar esses destroços, tirar cada pedrinha e pedrona e organizar a casa…

−Bora, está na hora, já ligou o computador pra aula? Entra na sala e me entrega o celular. Nada de redes sociais durante a aula.

E assim está o início de mais um dia na casa desta família, que se uniam 4 gerações em uma casa, porém, agora, os primeira geração lamentam por não poderem vir visitar a família.

−Mas então, mãe, se a saudade aperta, podemos nos ver. Estamos todos bem, tomando os devidos cuidados, até porque fico preocupada com vocês aí, melhor vocês aqui pertinho de nós – fala a segunda geração da família.

Enquanto fala, corre, porque pega no serviço às 9h, mas tem um bônus de hora porque nunca larga cedo mesmo… até porque nessa coisa de home-office, tem mais office do que home

E no que corre, abre a câmera e aperta a terceira geração para levantar e arrumar a cama;

Dá um beijo (ainda presencial) no marido e pergunta “que dia é hoje”, porque com esse negócio de #fiqueemcasa com tantas lives: é hoje, é amanhã, é “eu sei lá quando”, é difícil acompanhar.

O marido diz: “Uma agendinha não ajudaria?” Pergunta que fica no ar…

E exatamente naquela situação que a vida foi passando, de reunião em reunião, em um esforço muito mais além que o normal, como que, apesar da pressa impressa pelas situações vividas, andasse se pisando na Lua (economicamente falando)… Porque tem as contas para pagar e dinheiro extra não entra, novo serviço não fecha, se fecha é por menos dinheiro (e dinheiro, o que é mesmo???) Algo do século passado porque agora é permuta, parceria, enfim.

Agora outra cena de cinema, um de filme de moda, onde se troca bastante de roupa porque, se vai à rua, tem que ter cuidado com a roupa agora… A segunda e terceira geração quase não saía – porque lembremos do home-office e home-school também. E finalmente a primeira geração chegou à casa. Os avós. Casal bem animado, sabe? Só tem um porém: era uma caminhada, troca de roupa; uma ida à padaria, troca de roupa; se ia ao portão, troca de roupa… E onde troca? No corredor externo mesmo! Porque, afinal, não se pode entrar em casa com a roupa da rua. Faz o quê, tira no corredor?

Em outro momento, a segunda geração conversa com uma amiga bem mais velha que inicia a conversa pelo aplicativo de conversas, apesar de morarem uma ao lado da outra, pois definitivamente tudo deveria ser no virtual:

-E aí, como estão?

-Estamos ótimos, mantendo a forma, fazendo na pista da vida uma corrida e tanto!

-E eu aqui nunca fiz tanta ginástica em casa: tiro os quilos de comida da sacola de compras, limpo-os, faço exercícios com eles, depois coloco-os no armário. Faço movimentos de rotação com as mãos para limpar o que chega do mercado; faço bastante agachamento, trabalhando as coxas, porque mal encosto na cadeira com a roupa da rua, levanto quase num pulo quando me dou conta de que me esqueci de tirá-la ao chegar.

E tudo isso por causa de algo tão pequeno, um vírus, “a coisa” que ninguém vê. E outra dúvida no ar:

-Mas será que existe? – perguntou a amiga…

-Existe o quê?

-A coisa que mata? Isso não foi invenção? Você soube de alguém que tivesse morrido de fato disso?

E a segunda geração não sabe mais se fica feliz porque ninguém perto dela havia chegado a uma situação extrema? E os outros que haviam perdido alguém querido? E filmes vêm na tela de sua mente: um de ficção científica que a fez lembrar que nada de abraços ou apertos de mão, máscara a todo o tempo, limpeza de mãos a todo o tempo; e outro agora de sua amiga com essa pergunta se “a coisa” existia ou não!

E lá se foi a amiga dar uma corridinha, uma pelo corredor mesmo, para pegar água na cozinha – estratégia tomada para aumentar seus exercícios, tendo em vista que não podia sair de casa.

-Ufa, voltei!

-O que houve? Levou 3 minutos para voltar a falar. Pensei até que a internet tivesse caído.

-Vira essa boca pra lá! E como se vive hoje sem internet? E as Lives, os podcasts, os “zilhentos” (como falava sua amiga para indicar muita quantidade), aplicativos de conversa em que estou, sem falar nos grupos que me incomodam com tantas figurinhas, mas que calados podem deixar um vazio.

A segunda geração percebeu a importância da tecnologia para sua amiga que, afinal, vivia sozinha. Mas e se de repente tudo parasse mesmo?

Com facilidade de dispersar – porque era muita informação em pouquíssimo tempo – ela viu um novo filme, um de horror misturado com drama. Muitos “e se” em sua cabeça: E se não voltasse a ser como antes? E se piorasse? E se os óbitos aumentassem? E se o número de pessoas deprimidas aumentasse?

E, de repente, a primeira geração chega tirando a roupa de uma saidinha rápida e pedindo álcool para passar nos sapatos; seguidos da terceira e os da quarta geração que foram tomar café, mesmo sem poder, mesmo em distanciamento social; mas ouvindo as gargalhadas das crianças (aquelas de quem sorri com a Alma), a bronca de “vocês não podiam ter vindo” se desfez e abriu-se um sorriso. Até porque a quarta geração (crianças sapecas, mas lindas) estava muito bonitinha com as máscaras de desenhos animados e, para surpresa geral, estavam super adaptadas, como todas as outras pessoas ao seu redor que até faziam da máscara um novo acessório, até sob suspeita de virar moda depois de tanto costume do uso, pois, afinal, lá se iam 9 meses de pandemia.

O filme de nostalgia ia se dissipando porque, apesar de o número de perdas ser grande – perda de vidas, de poder aquisitivo, de trabalho -, a segunda geração via a vida correr à sua frente, com até um toque de filme de comédia daquelas cenas hilárias de uma família muito unida, passando para a tela de um coração aquecido de um filme com um toque mais espiritualizado. E, aqui, congela-se a cena que era clara, a de super heróis, que por algo interno são movidos a vencer diariamente os medos, os desânimos, as notícias ruins, que são convidados a fazerem do limão uma bela torta de limão e ainda colocam umas gotinhas no chá.

Neste momento, encerra-se o documentário “Várias Maneiras de se Enfrentar o COVID”, onde todas as pessoas são protagonistas deste momento da História que vivemos: “2020, O FILME”.

Texto/autora: Tess Villa

Área de Atuação: Educação, Arte Literária, Contação de História

Arte gráfica e ilustração: @villaskohl

Projeto Editorial: Tess Villa